Luiz de Mattos em sua época foi um espírito incansável, foi um bravo e duplamente abolicionista. Lutou pela liberdade do homem escravo do próprio homem. Mas também lutou pela liberdade do homem escravo dos dogmas escravagistas e grosseiros, liberando o pensamento do homem travado nas amarras do misticismo religioso, levando-o ao auto conhecimento de si próprio como Força e Matéria.

Bernardo Vieira Ravasco - Irmão do Padre Antônio Vieira

De acordo com o arquivo mundial “Wikipédia”, Bernardo Vieira Ravasco, nasceu em 1608 - 1697 (20 de julho, dia e mês indefinidos), foi secretário do estado e guerra do Brasil desde 1649, o que representava o segundo cargo mais importante na colônia, logo abaixo do governador-geral, e ainda provedor da Santa Casa da Misericórdia, era irmão do Padre Antônio Vieira.

O crescimento das secretarias de nomeação régia, no governo português, deu-se a partir do reinado de D. João IV de Portugal. Em seu reinado foram nomeados apenas dois secretários, um para o Estado da Índia e outro para o Estado do Brasil. Especificadamente para o Brasil, o cargo de Secretário foi dado pela primeira vez por provisão régia de 17 de Fevereiro de 1646, nos mesmos moldes do que havia sido instalado na Índia,

«que tenha a seu cargo os papéis daquele governo com que se dará melhor expediente dos negócios e serem mais bem encaminhados, cessando os inconvenientes que se tem experimentado por não haver pessoa permanente neste ofício, nem arquivo em que se guarde os ditos papéis, ficando por esta causa os governadores que entram naquele Estado faltos de notícias dos negócios começados".

O primeiro secretário foi Bernardo Vieira Ravasco, que recebeu o cargo por provisão real da mesma data, para servir por espaço de três anos. Entretanto, em "satisfação dos serviços do seu irmão, o padre Antônio Vieira" lhe foi concedido, a partir de 7 de Março de 1650, passar a servir o cargo sem limitação de tempo e com a possibilidade de transferir ao seu filho, Gonçalo Ravasco Cavalcanti de Albuquerque.

De gênio forte como o irmão, Bernardo tomou posições que o levaram por duas vezes à prisão, apesar do cargo.

Quando o Padre Antônio Vieira estava preso nos calabouços da Inquisição em Coimbra à espera de sentença, em 1667, Bernardo estava no Brasil, proibido de se afastar dos seus aposentos por mais de um ano, acusado de conspiração contra o governador-geral D. Vasco Mascarenhas, conde de Óbidos. Em 1683, já o padre Antônio Vieira tinha regressado à Bahia, quando a família foi acusada de cumplicidade no assassinato do alcaide de Salvador pelo governador Antônio Sousa Meneses, o Braço de Prata. Bernardo sofreu mais dois anos de prisão encarcerado entretanto em dois conventos, onde partilhou a detenção com o poeta Gregório de Matos, o Boca do Inferno, acusado do mesmo crime.

Descendência

Bernardo Vieira Ravasco, o irmão do Padre Antônio Vieira, embora solteiro, teve dois filhos e uma filha de uma dama de boa família brasileira, D. Filipa Cavalcanti de Albuquerque. Filipa tinha uma irmã mais velha, Maria, por quem outro vulto extraordinário do século XVII português, D. Francisco Manuel de Melo, se apaixonou quando esteve degredado na Bahia durante pelo menos três anos, até 1658, e dela teve uma filha, Bernarda, cujo padrinho foi Bernardo Vieira Ravasco. O 2ª filho de Bernardo e Filipa, que teria cargos públicos, foi batizado Gonçalo Ravasco Cavalcante e Albuquerque (ainda grafado Cavalcanti de Albuquerque). Em documentos do Arquivo Histórico Ultramarino, onde está depositado um atestado de 19 de Setembro de 1719 (cota antiga AHU_Baía,cx.10,cx.71, cota moderna AHU_ACL_CU_005,Cx.12,D.1050) é mesmo Gonçalo Ravasco Cavalcante e Albuquerque.

Gonçalo Ravasco Cavalcante e Albuquerque – Sobrinho do Padre Antônio Vieira

Assim figura seu nome no Arquivo Histórico Ultramarino em Portugal mas diversos documentos o tratam por Gonçalo Ravasco Cavalcanti de Albuquerque.

Era filho de Bernardo Vieira Ravasco e sobrinho do famoso jesuíta o Padre Antônio Vieira.

Quando o pai foi preso, acusado de cumplicidade - como o poeta satírico Gregório de Matos, o Boca do Inferno - no assassinato do Braço de Prata, Gonçalo tinha 24 anos. Fugiu do colégio dos jesuítas onde se tinha refugiado e embarcou para o Reino, defender a inocência da família, com a ajuda do tio o padre Antônio Vieira, que despachava cartas de raiva e indignação para correspondentes em Lisboa.

Gonçalo herdou do pai as qualidades e os defeitos da família, desde o espírito galhardo louvado por Gregório de Matos até ao posto de secretário de estado e guerra, quando o pai adoeceu.

Certamente para agradar o sobrinho, Antônio Vieira escreveu e talvez tenha pregado um sermão famoso, em honra de São Gonçalo em 1659. À morte do pai e do tio, Gonçalo tinha 38 anos. Morreria em 1725 aos 66 anos, cavaleiro da Ordem de Cristo (o seu pai porém só obteve o hábito da Ordem, pois uma avó paterna negra o desclassificava para o cargo de Cavaleiro da Ordem de Cristo).

Gonçalo Ravasco está sepultado na tumba do pai, que nos leva a pensar que Padre Antônio Vieira, também esteja nesse altar junto do Santíssimo na igreja da Ordem Terceira do Carmo em Salvador, na Bahia. Na época, havia ainda grandes polêmicas com os jesuítas e com a Inquisição a propósito dos textos de Vieira intitulados Clavis Prophetarum. Fora publicado em 1718, com aplausos dos censores, o texto da História do Futuro, escrito há 60 anos, mas a grande obra da vida do Padre ainda estava envolta em polêmicas, sequestros e indecisões.

Sua vida, como comenta a página inserida pela Universidade de São Paulo na internet para divulgar a obra de Sebastião da Rocha Pita, está ligada à do historiador: diz Pedro Puntoni que pois teria sido por encomenda da esposa de Gonçalo Ravasco que Rocha Pita escreveu uma de suas duas únicas obras poéticas: o «Summario da vida e morte da exma. sra. d. Leonor Josepha de Vilhena e das exéquias que se celebraram a sua memória na cidade da Bahia», livro que foi publicado em Lisboa em 1721 na oficina de Antônio Pedroso Garlrão.

Os dois textos poéticos do historiador «reportam o desempenho da sociedade colonial nas homenagens ao falecido rei de Portugal e à esposa de D. Rodrigo da Costa, governador do Brasil (1702-1708). Esta última homenagem teria sido feita por encomenda da esposa de Gonçalo Ravasco, secretário do Estado do Brasil que, como Manuel Botelho, era colega de letras e outras aventuras de Rocha Pita e também arriscou-se na poesia - mas pouco publicou.

Bernardo Vieira Ravasco - Irmão do Padre Antônio Vieira
Por Wilson Candeias

Fonte:
Pesquisa livre na internet

DOIS SONETOS DOS IRMÃOS VIEIRA
Por Alfredo Maceira Rodríguez (UCB)
RESUMO
Apresentação e análise de dois sonetos: um de Bernardo Vieira Ravasco a seu irmão Padre António Vieira e outro do próprio Padre em resposta. Os sonetos não têm título e foram compostos com a sílaba pa, no final de cada verso.

INTRODUÇÃO
Na edição diplomática de um códice da Biblioteca de Évora, que tem como título Poesias de Gregório de Matos, organizada pelo Prof. José Pereira da Silva em 1997 e publicada pela UERJ / DIGRAF, encontram-se dois sonetos: um da autoria do então Secretário do Estado do Brasil, Bernardo Vieira Ravasco, dedicado a seu irmão, Padre António Vieira, e outro, em resposta, do próprio Padre a seu irmão. Ambos os sonetos, estão escritos com uma consoante forçada (neste caso a consoante p, formando sílaba átona com a e encerrando todos os versos).
A curiosidade que nos despertaram estes dois sonetos levou-nos a tentar analisá-los e atualizá-los, com a intenção de uma melhor compreensão dos mesmos. Assim, sem pretender fazer uma edição crítica, reproduzimos aqui os textos dessa edição diplomática e fazemos nossas observações a respeito, na esperança de que especialistas como o Prof. Francisco Topa, de Portugal, os professores Ruy Magalhães de Araújo, José Pereira da Silva, entre outros que entre nós se dedicam a este tipo de estudos, façam seus comentários e críticas construtivas com a finalidade de levar ao grande público a obra de autores consagrados, porém pouco lidos. É bem sabido que a obra de Gregório de Matos, e de outros autores portugueses e brasileiros do período colonial, quase não está acessível ao leitor de hoje, o que nos parece uma perda para a cultura em geral.
Transcrevemos os dois sonetos, seguidos das notas e comentários que julgamos pertinentes.

Soneto
De Bernardo Vieyra Ravasco Secreto do Estado do Brasil.
A seu irmam o Padre Antonio Vieyra
Consoantes forçadas

Se queres ver do Mundo hum novo Mapa
Oytenta annos, atenta desta cepa
por onde em ramos a cubica trépa
e emmaranhada faz do tronco lapa.
Morde com dentes, que nam tem ca papa
com a lingua fere, com a mam decépa
soldado opposto, livre de carêpa
que de tarde e manhaam rayvoso rapa.
Os olhos de agua, as faces de tulipa
e cada hum dos pês de pào garlopa
a boca grande e, o corpo de chalupa
Obofe muyto, e muyto pouca tripa
e a minha Muza, por que a tudo topa
he Apa, Epa, Ipa, âpa, upa

Soneto
Do Padre Antonio Vieyra Em resposta
ao antecedente de seu Irmam
mesmos consoantes.

Sobe Bernardo da Eternidade ao Mapa
deyxa do velho Adam a mortal cepa
pelo Lenho da Cruz ao Impirio trepa
começando em Bethlem na pobre Lapa.
Mais que Rey pode ser, e mais que Papa
quem de seu coraçam vicios decépa
que a grenha de Samsam, tudo he carêpa
e a guadanha da morte tudo rapa!
A flor da vida, he cor de tulipa
tambem dos secos annos he garlopa
que corta, como ao mar, corta a chalupa
Nam ha mister que o fosso, corte atripa
Se na parte vital ja tudo topa
he Ape, èpa, ipa, opa, ûpa.

ANÁLISE DOS POEMAS
Datação
Sabemos que o Padre António Vieira nasceu em Portugal em 1608, sendo seu pai Christovam Vieira Ravasco e sua mãe D. Maria de Azevedo. Ainda bem pequeno mudou-se com seus pais para o Brasil. Seu pai sabe-se que desempenhou a função de Secretário do Estado, cargo depois exercido por seu filho mais novo, Bernardo, até a sua morte.
Bernardo Vieira Ravasco nasceu na Bahia (Brasil) em 1617 e exerceu como Secretário do Estado, cargo anterior de seu pai. Escreveu vários trabalhos principalmente sobre administração e política coloniais. Seu nome é referenciado em manuais de história e de literatura coloniais. Nesta literatura, ele é considerado um dos primeiros escritores nascidos na colônia. Faleceu em 1697, no mesmo ano em que faleceu seu irmão António.
Com relação aos sonetos em tela, a única informação indireta de que dispomos é a que nos fornece Bernardo em seu soneto ao referir-se a seus oitenta anos. Se realmente o soneto foi composto em seu octogésimo aniversário, isto ocorreu no mesmo ano de sua morte (1697), quando também faleceu seu irmão, mas este já com 99 anos.

Temática e imagística.
Bernardo faz um retrato de sua vida (o novo mapa), aos oitenta anos, a seu irmão, o Padre Antônio Vieira. Inicialmente relata suas falhas: cobiça, agressividade, raiva, etc., para logo fazer seu retrato físico, nada lisonjeiro: olhos d’água, faces de tulipa, pés de garlopa, boca grande, corpo de chalupa, muito bofe e pouca tripa. Porém nada disto o afasta da poesia. Sua musa (inspiração) está em ascensão.
A esta confissão de seus defeitos e fraquezas, responde-lhe o irmão com a elevação espiritual que lhe é peculiar, situando-o acima de rei e de papa, acenando-lhe com a eternidade e tecendo loas a suas qualidades morais, sobretudo a sua vitória sobre os vícios. O que a Bernardo se lhe assemelham defeitos, são para o irmão virtudes que o conduzirão à vida eterna.
Entre as imagens que permeiam os sonetos, encontramos quase todas as que caracterizam o período barroco. Assim, entre muitas outras figuras verificamos a existência de palavras e expressões metafóricas como mapa, cepa, ramos, soldado oposto, lenho da cruz, gadanha, garlopa e fosso.

Estrutura
Trata-se de sonetos de versos decassílabos, com esquema rímico ABBA, ABBA, CDE, CDE. Ambos os sonetos vêm com a indicação de consoantes forçadas, ou seja, todos os versos sem encerram com a mesma consoante. Nestes sonetos, todos se encerram com a sílaba átona -pa, o que é apenas um recurso formal, visto que não interfere na rima por tratar-se de sílaba átona.
Outro recurso gráfico usado pelos dois poetas é o deslocamento dos versos não iniciais de estrofe em uns quatro centímetros. É apenas um recurso visual.
Ambos os sonetos empregam quase as mesmas palavras. As rimas são feitas em ambos entre substantivos em todos os versos, com exceção do 3o verso da primeira estrofe, do 2o da segunda e do 2o da última, onde a rima é feita com uma forma verbal. O verso final faz a rima com uma interjeição, implicando movimento para o alto.

Ortografia
Parece que os dois sonetos foram compostos quase no final do século XVII, já que os dois irmãos faleceram no mesmo ano (1697) e, pelas conjeturas expostas, pertenceriam a esse mesmo ano. Verificamos na ortografia, entre outras grafias do português arcaico, a permanência ainda de consoantes geminadas (annos, emmaranhada, opposto), assim como um caso de vogais iguais com a crase sem realizar (manhaam). O ditongo nasal tônico final ainda é grafado-am (irmam, nam, Adam, Samsam, coraçam). O fonema semivocálico [i] em ditongos decrescentes é geralmente grafado com y (Vyeira, deyxa, muyto, Rey, rayvoso. oytenta), porém freitos não segue a norma. Às vezes o artigo é grafado junto com o substantivo a que se refere, como se observa nos conglomerados gráficos (Obofe, atripa). O numeral um recebe um h (hum), sem justificativa etimológica.

CONCLUSÃO
Verificamos que os dois sonetos trocados entre os irmãos Vieira, embora possam ser considerados exercícios lúdicos, não deixam de refletir a estética barroca e transmitir valores da filosofia dominante, particularmente da conceição religiosa, tão bem representada pelo Padre António Vieira. O conceptismo, tão conhecido em sua obra sacra, não deixa de estar presente neste seu soneto, assim como no de seu irmão, que aqui se nos apresenta imbuído da mesma filosofia. Não podemos nem mesmo descartar o estilo cultista, em alguma ocasião condenado pelo Padre, mas que admitia não poder evitar, dada sua força expressiva na época.
A seguir, apresentamos os dois sonetos com a grafia atualizada.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. 3. ed. rev. e aum. V. 2. Rio de Janeiro / Niterói: José Olympio / UFF (EDUFF), 1986.
DICCIONARIO de la Lengua Española. 21. ed. Edición electrónica. Madrid: Real Academia Española / Espasa Calpe, 1998.
MOREIRA, Maria Eunice. Uma história singular: Eduardo Periê e a literatura colonial brasileira .(Paper apresentado no XIII Encontro da ANPOLL).
NOVO DICIONÁRIO AURËLIO eletrônico - Século XXI. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
NUNES, José Joaquim. Crestomatia arcaica. 7. ed. Lisboa: Livraria Clássica Editora, [1970].
SILVA, José Pereira da. (Org.) Poesias de Gregório de Mattos. Rio de Janeiro: UERJ/DIGRAF, 1997.
VIANA, Mário Gonçalves. Sermões e lugares selectos: Pe António Vieira. Porto: Editora Educação



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