Luiz de Mattos em sua época foi um espírito incansável, foi um bravo e duplamente abolicionista. Lutou pela liberdade do homem escravo do próprio homem. Mas também lutou pela liberdade do homem escravo dos dogmas escravagistas e grosseiros, liberando o pensamento do homem travado nas amarras do misticismo religioso, levando-o ao auto conhecimento de si próprio como Força e Matéria.

Funicular do Morro Nova Cintra - O Tramway de Luiz de Mattos

Sempre ativo e trabalhador, o idealista Luiz José de Mattos conquistou uma considerável fortuna e fundou diversas empresas no Rio de Janeiro e em Santos; dentre elas a Companhia Industrial e a Companhia Carris de Ferro, etc.

Convém ressaltar que esta última é citada por muitos autores como uma estrada de ferro, ou TRAMWAY, uma companhia organizada numa época de grandes dificuldades financeiras, portanto uma obra que demandou avultado capital, que consistia num sistema de transporte no qual a tração era feita através de cabos acionados de forma hidráulica para subir e descer a inclinação do Morro Nova Cintra, Santos.

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A concessão foi aprovada em 1896 e entrou em funcionamento em 26 de dezembro de 1897, entretanto depois de servir por 25 anos ao povo dessa localidade, no dia 29 de maio de 1922, encerrou suas atividades de forma trágica.

Os troles do funicular despencaram pela encosta, com vários passageiros gravemente feridos e 2 deles desencarnarem pelo impacto, o que provocou a extinção do "TRAMWAY" pelo seu idealizador Luiz de Mattos.


O "TRAMWAY" tinha sua sede no final da Rua Julio Conceição (atualmente Av. Francisco Manoel), donde também havia o ponto final dos bondes de tração animal, base do morro da Nova Cintra.

Este funicular, popularmente chamado de bondinho, funcionava sem o uso de energia elétrica e sim através de tanques de compensação (água). Ao se encher o bondinho de cima ele descia e ao mesmo tempo puxava através da ligação feita por cabos de aço o que estava embaixo...

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O "TRAMWAY" de Nova Cintra, não utilizava motores, vapor ou tração animal. Utilizava simplesmente a água das fontes do topo do morro para movimentar o funicular instalado na encosta leste (voltado para a praia).




O funicular tinha duas linhas, e em cada linha corria um carro de tração atrelado a um carro de passageiros e cargas. Os carros de tração funcionavam lastreados pelo peso da água contida em seu tanque. Cada carro de serviço tinha um reservatório com capacidade de duas toneladas (2 mil litros de água).


Quando a carga e os passageiros contidos no vagão destinada a subir estavam acomodados, o reservatório de água do carro de tração que estava no topo do morro, era abastecido com água até estabelecer o desequilíbrio. Momento no qual começava a descer puxando o carro que estava embaixo.

O controle de descida era efetuado pelo freio dos carros de tração. Este funicular funcionou de 1897 até 1922, quando cessaram as atividades em consequência do acidente causado pela ruptura dos cabos de tração.

No topo do morro da Nova Cintra existe uma lagoa alimentada por fontes. As quais, em 1534, moviam um engenho histórico localizado no lado oeste do morro, “Engenho do Governador”, atualmente suas ruínas são conhecidas como Engenho de São Jorge dos Erasmos.

A história do TRAMWAY pela imprensa da época


Apesar dessas terras pertencerem ao patrimônio de Luiz de Mattos, o fato da implantação do "TRAMWAY", foi um acontecimento importante para a cidade, e, nem tudo aconteceu de forma regular, nos arquivos do jornal O Estado de São Paulo, uma das primeiras referências aos melhoramentos no morro da Nova Cintra data de 26 de setembro de 1896, quando publicou, na página 2 a denúncia de Benjamin Fontana - dono de terras no morro do Fontana - contra a empresa que instalaria o funicular e o proprietário de terras no morro de Nova Cintra, Luiz José de Mattos.


(Acervo Estadão - ortografia atualizada nesta transcrição):


"Santos
EMPRESA NOVA CINTRA
A quem possa interessar, a fim de evitar prejuízos de terceiros, aviso que requeri a tempo e continua o processo contra Luiz José de Mattos e sua mulher, da demarcação de terras com queixa de esbulho violento consumado de improviso em dia santo de guarda, por mais de 200 pessoas armadas que construíram uma extensa cerca, esbulhando cerca de 20 casas e uma grande quantidade de terras com plantações, tudo de minha legítima propriedade, com posse de mais de 30 anos; o processo corre no cartório do tabelião Pacheco e dos editais judiciais publicados no Diário Oficial e jornais da terra. Eis, pois, as casas e terras da famosa Empresa Nova Cintra. Benjamin Fontana."

Em 23 de novembro de 1896, o mesmo O Estado de São Paulo publicou nota na seção Os Municípios/Santos, na página 1.


"O novo bairro Nova Cintra vai ter um plano inclinado, cujo assentamento já foi contratado com a Companhia Mechanica de S. Paulo - melhoramento esse que se realizará antes de três meses."

Com a instalação em curso, o acesso à base do plano inclinado foi providenciada. O Estado de São Paulo também publicou, em 18 de agosto de 1897, página 1.



"Os bondes que pela primeira vez transitaram na Rua Rangel Pestana, no trecho compreendido entre a Vila Mathias e o plano inclinado da Nova Cintra, conduziram para este último local, no domingo, nada menos de 480 passageiros."

A entrega dos veículos para o plano inclinado também foi registrada por O Estado de São Paulo, na primeira página da edição de 23 de outubro de 1897, seção Os Municípios/Santos.

"Destinados ao plano inclinado de Nova Cintra já chegaram àquela cidade três bondes, de sistema americano, manufaturados nesta capital pela Companhia Mechanica e Importadora."

Os últimos testes do sistema foram igualmente noticiados por O Estado de S. Paulo, na primeira página da edição de quarta-feira, 15 de dezembro de 1897, seção Os Municípios/Santos.

"Anteontem, às 5 horas da manhã, realizaram-se em Nova Cintra as últimas experiências do movimento de bondes no Plano Inclinado da Empresa Nova Cintra, devendo a inauguração definitiva realizar-se no domingo.

Pelas experiências realizadas verificou-se que as viagens do Plano Inclinado podem fazer-se em 2 1/2 minutos, com a máxima segurança."

O tempo chuvoso adiou por alguns dias a inauguração do sistema. Na edição de sábado, 25 de dezembro de 1897, na primeira página, o jornal O Estado de São Paulo confirmou.

"É hoje que se realiza em Nova Cintra a inauguração do plano inclinado.
Ao que nos consta, o ato terá um caráter altamente festivo."

"Deve ter seguido hoje para Santos a música do 3º batalhão que tomará parte nas festas de comemoração do plano inclinado do bairro de Nova Cintra, que está destinado a tornar-se um dos mais concorridos arrabaldes da importante cidade comercial do nosso estado.

Luiz José de Mattos, uma lembrança viva

Em 22 de Julho de 1982, o Jornal A Tribuna de Santos publicou a história que muitos ainda lembram de como Luiz de Mattos no início do século XX, passou a fazer parte da vida dos moradores do Bairro de Nova Cintra e, vale reproduzi-la. 

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Sítios, caminhos cheios de lama e os bondinhos movidos com a força d'água - Apesar de ter sido chamado de Tacho ou Tachinho por muito tempo, o Morro da Nova Cintra recebeu também a denominação de Morro dos Prados. O nome atual foi dado por José Luís de Mattos, que se instalou ali no final do século XIX e não conseguia desvincular o lugar de Sintra, cidade de Portugal com topografia semelhante.

O nome do português José Luís de Mattos até hoje anda na boca dos moradores. Georgina de Freitas Alves, moradora há 70 anos, lembra dele como o homem que construiu uma poética capelinha branca, sob a invocação de São João Batista, que se tornou padroeiro do bairro. A capela fica justo onde está a igreja, no final da Avenida Santista, só que no alto de um morro "que parecia um ovo de galinha", no dizer de dona Georgina.

Ela conheceu o morro no tempo em que só havia sítios. A cana, a batata-doce e a mandioca cresciam que era uma beleza por aquele mundo de terra afora. Nada de ruas, muito menos avenidas: apenas caminhos, feito trilhas de ratos.



O que mais se assemelhava a progresso era o funicular hidráulico, que o pessoal chamava simplesmente de elevador. Pitoresco como ele só, funcionava desse jeito: dois carros, ligados entre si por cabos de aço, corriam sobre roldanas dispostas no eixo da linha graças à força da água.

À medida que se enchia um determinado compartimento anexo, o trem ficava pesado e descia, arrastando consigo o outro, que vinha em sentido contrário. Quando aquele chegava ao sopé do morro, era esvaziado, de modo a ficar leve o suficiente para subir assim que o outro começava a descer com o peso da água.

O funicular ficava mais ou menos onde está hoje a Avenida Guilherme Russo e funcionou até 29 de maio de 1922, quando houve um acidente com mortos e feridos. Naquela fatídica data, rompeu-se um dos cabos de aço e o bondinho despencou morro abaixo, com 16 passageiros. Alguns se atiraram para fora, debaixo da gritaria e do desespero de todos.



Dona Georgina escapou desse acidente por muito pouco, pois subiu na última viagem que o bondinho deu. Ela acabara de sair e retirar sua sacola de compras quando percebeu um grande tranco, que precedeu a tragédia. Até hoje ela conta essa história, com um jeitinho assustado, esfregando as mãos, como se tudo estivesse acontecendo novamente diante de seus olhos.


E se a vida dos moradores do morro já era dura, imagine-se depois, com aquelas intermináveis caminhadas pelas encostas de lama e barro. Mas os ilhéus eram gente de coragem, carregavam blocos de pedra nas costas para melhorar os carreirinhos, deixavam cair gotas de suor sobre a terra, que retribuía com boas colheitas.


Cada um tinha seu sitiozinho, só que ninguém era dono do chão que beneficiava. Daí as incertezas, as dúvidas, o medo de perder tantos anos de trabalho de uma hora para outra. Aquilo quase tudo pertencia à família Marinangele, e dona Georgina ainda se recorda do Maurício chegando na porta para cobrar os aluguéis.

Na vida de Georgina e Carmela, um testemunho de muito trabalho - Carmela Ferrone, que todos conhecem por Maria, nasceu na Nova Cintra há 76 anos e é tida como a moradora mais antiga. Filha de uma das poucas famílias de italianos, está lá para provar como eram difíceis aqueles tempos. A terra e as matas garantiam o sustento, só que exigiam esforço da família inteira.

Dona Maria parece estar vendo novamente o pai Miguel Ferrone sair cedo, de madrugada, para cortar madeira. Madeira que se transformava em carvão, vendido a preços quase irrisórios pelas ruas. A quentura do fogo, os tabuleiros cheios de carvão, as caminhadas dela e da mãe Manoela são coisas difíceis de se esquecer.

Andar com balaios na cabeça era a rotina também de dona Georgina. Menina ainda, descia o morro carregando consigo o peso de verduras, frutas e legumes. Batata-doce, mandioca, mangarito, banana, de tudo a terra dava um pouco. Ela seguia pelos lados da Rua João Guerra, percorria todo o Centro e sempre que passava na Braz Cubas tinha que aturar os gracejos dos operários que realizavam o calçamento da pista. "Mal empregado. Tão bonitinha com balaio na cabeça", diziam eles, e apesar da brincadeira ter seu lado elogioso não soava nada bem aos ouvidos de quem já estava cansada de andar.



Os moleques viviam atrás de dona Georgina, atraídos pelas frutas vistosas que carregava. "Gosto tanto de banana; gosto tanto de goiaba", comentavam com os olhinhos arregalados. A menina acabava cedendo aos apelos, porque afinal queria se ver livre do peso. Era assim: se não conseguia vender a carga, tinha que voltar com ela na cabeça.

Não é à toa que os antigos moradores da Nova Cintra não saem de lá por nada no mundo. Há toda uma relação de vida e sobrevivência, apego à terra e amor ao lugar onde conseguiram se fazer pessoas respeitadas.

João das Tábuas, Candoca e seus chapéus, Normando, Caetano, Geraldo Ferrone, Chico sem Palavra, João Mal Tempo, Chico de Sá, Cândido Matos, Palhares, Farias, velho Mandioca, Zé Russo. Alguns mortos, outros vivos, mas tudo gente que continua na lembrança de Georgina e Carmela. Quem não se lembra de dona Ana Padeiro, que garantia pão quente e broa da melhor qualidade, ou de José Plácido, conhecedor de tudo quanto é erva boa para remédio?

Ficaram na lembrança também a escolinha de Dona Afonsina, na hoje Avenida Santista, e as festas em homenagem a São João Batista. Festa bonita, organizada com todo trabalho pelos moradores, que ficavam horas e horas enfeitando tudo com bambu e preparando as chamadas lanternas japonesas.

No dia, passavam de barco pela Lagoa da Saudade, velhos e saudosos tempos, muito trabalho e vida dura.


Sistema funicular Monte Serrat
Apesar dos percalços pelo caminho de Luiz de Mattos para implantar o TRAMWAY no Bairro de Nova Cintra, houve quem se inspirou e acreditou na ideia, investindo num sistema praticamente semelhante, assim em 1910, surgiu um novo projeto, o funicular do Monte Serrat.


Sistema funicular Monte Serrat

O sistema funicular do Monte Serrat foi planejado em 1910 e construído em 1923 e liga o centro da cidade ao alto do Monte Serrat, onde está um grande cassino inaugurado em 1927 (fechado devido à criação da lei que proíbe jogos de azar no Brasil, em 1946) e a Capela de Nossa Senhora do Monte Serrat, padroeira da cidade.

Possui dois bondinhos, que operam sempre simultaneamente: enquanto um sobe, o outro desce, e os dois se encontram exatamente na metade do percurso, onde há um desvio.
Sistema funicular Monte Serrat












Funicular do Morro Nova Cintra - O Tramway de Luiz de Mattos
Por Wilson Candeias

Fonte:
Especial agradecimento ao Senhor Gilmar Domingos Oliveira
Pesquisa livre na internet
• Wikimapia
• Fragmentos de Uma Bela História

Todos estão convidados a dar um passeio pelo "funicular" do Monte Serrat



Também podemos contemporizar sobre a junção do Bairro do Jabaquara, com os Morros Jabaquara e Nova Cintra, que devido a familiaridade de Luiz de Mattos com estas terras, possivelmente aqui tenha sido parte do "Quilombo Jabaquara".

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